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O comportamento de risco e sua relação com os acidentes ferroviários – Parte II

Há duas formas de atravessar a ferrovia: uma delas é pelas passagens em nível, também conhecidas como PNs – os cruzamentos entre ferrovias, calçadas e rodovias. A outra são as passagens em desnível – como passarelas, viadutos e túneis.

Ao contrário destas, onde os veículos e pedestres não entram em contato com a via férrea, nas PNs os transeuntes passam por cima dos trilhos, ou seja, diretamente no caminho dos trens.

Uma passagem de nível e seu cruzamento com uma estrada.
Uma passagem de nível e seu cruzamento com uma estrada.

De acordo com o boletim estatístico da Confederação Nacional do Transporte – CNT, no Brasil há mais de 12 mil passagens em nível (cruzamento de uma via rodoviária e uma linha férrea), sendo que 2.659 são consideradas críticas. 

Enquanto que em 2019 não se registou qualquer fatalidade nem ferimento grave resultante de acidentes ferroviários devido a problemas intrínsecos ao sistema (colisões de comboios, descarrilamentos, etc.) – o que já não se verificava desde 2010 -, o Relatório Anual de Segurança Ferroviária de 2019, emitido pelo Instituto da Mobilidade e dos Transportes – IMT para avaliar o desempenho de segurança ferroviária na Rede Ferroviária Nacional, constatou que houve um incremento de 112,50% no número de feridos graves por envolvimento em acidentes ferroviários por uso indevido do espaço ferroviário, quando comparado com 2018.

Um carro ao lado de uma ferrovia.
Um carro ao lado de uma ferrovia.

Já o número de vítimas mortais aumentou em 77,78% nos últimos dois anos, sendo que todas as fatalidades foram resultado do uso indevido do espaço ferroviário (PN e canal ferroviário), e não por acidentes ferroviários intrínsecos ao sistema.

Consistentemente, ao longo dos últimos dez anos, e à semelhança do que acontece nas redes de caminho-de-ferro europeias, as duas categorias que registram a maioria dos acidentes são: 

  • As relativas aos acidentes com pessoas causados por material circulante em movimento;
  • Acidentes em passagens de nível, tendo estes sido os causadores de 90,20 % das fatalidades e feridos graves registados em Portugal em 2019.

Estas categorias de acidente estão relacionadas aos elementos externos à interface do sistema ferroviário, resultado do uso indevido do espaço dos trilhos. 

Pessoa prestes a atravessar os trilhos do trem.
Pessoa prestes a atravessar os trilhos.

A tendência das pessoas de utilizarem impropriamente o espaço ferroviário, por se deslocarem sobre os trilhos ou permanecerem em locais não autorizados (lembramos que os trilhos e pátios são uma área técnica da ferrovia, onde é proibida a circulação de pessoas sem autorização), ou ainda por desrespeito às regras de atravessamento das passagens de nível, ainda constitui a causa da esmagadora maioria das vítimas mortais – em Portugal, desde 2010, correspondem à sua totalidade.

Quando ocorre um atropelamento, tendemos a procurar culpados imediatos.

Porém, isso é o resultado de toda uma cultura de comportamentos de risco – um conjunto de ideias, comportamentos, crenças, formas de percepção de risco e práticas sociais relacionadas à ferrovia que não promovem a segurança.

A solução mais eficaz vem por meio da educação e da conscientização.

Informe-se e se engaje nessa luta – sua participação é essencial para mudarmos essa situação no Brasil.

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