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Shisa Kanko – “Apontar e falar”

A simples técnica japonesa de segurança ferroviária responsável pela diminuição de até 85% dos acidentes nas estações.

Tradução do artigo “Why Japan’s Rail Workers Can’t Stop Pointing at Things”, de Allan Richarz.

Um funcionário da estação ferroviária performando o “apontar e falar”, foto de Christoph Roser at AllAboutLean.com under the free CC-BY-SA 4.0 license.

É difícil não notar a seguinte cena ao pegar um trem em Tóquio: funcionários de luvas brancas e uniformes impecáveis apontando para a plataforma e dando avisos em voz alta – aparentemente para ninguém – enquanto trens deslizam para dentro e para fora da estação. Dentro do trem acontece a mesma coisa, os motoristas e condutores reproduzem movimentos quase performáticos enquanto operam painéis, botões e telas.

O sistema ferroviário japonês tem uma merecida reputação de ser um dos melhores do mundo. Uma extensa malha ferroviária transporta cerca de 12 bilhões de passageiros todo ano, com uma pontualidade medida em segundos – o que faz a malha ferroviária japonesa uma legítima maravilha na questão dos transportes, altamente confiável e precisa.

Os condutores de trens, motoristas e funcionários das estações têm um papel importante na segurança e eficiência da operação das linhas; um aspecto chave é a variedade de gestos físicos e chamadas vocais que eles efetuam ao cumprir seus deveres. Enquanto esses gestos e chamadas possam parecer bobos aos visitantes, os movimentos e avisos em voz alta são um método inovador japonês de segurança industrial conhecido como “apontar e falar”. Esse sistema reduz acidentes de trabalho em até 85 por cento.

Reforço visual e auditivo às etapas de segurança

Denominado “Shisa Kanko” em japonês, “apontar e falar” parte do princípio de associar os trabalhos do indivíduo com movimentos físicos e vocalizações para prevenir erros – o intuito é aumentar o nível de consciência dos trabalhadores, de acordo com o Instituto Nacional de Segurança e Saúde do Trabalho do Japão. Ao invés de depender apenas da visão e dos hábitos dos trabalhadores, cada passo de determinada função é reforçado fisicamente e auditivamente para garantir que o referido passo está sendo dado de maneira completa e precisa.

Um condutor de trem do Japão apontando. Foto por Alan Levine from Strawberry, United States, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons

No contexto da ferrovia, quando condutores precisam fazer uma checagem da velocidade do trem, eles não dão apenas uma olhadela no painel. Seu procedimento é apontar fisicamente para o velocímetro, pronunciando em voz alta, por exemplo, “checagem da velocidade, 80” – confirmando que a ação realizou-se e também confirmando em voz alta a velocidade correta. Para os funcionários da estação que garantem que as laterais da plataforma adjacentes aos trilhos estão livres de detritos ou passageiros caídos, uma checagem visual não é suficiente. Adicionalmente, o atendente vai apontar para os trilhos e balançar seu braço perpendicularmente ao comprimento da plataforma – os olhos seguindo a mão – antes de declarar que está tudo livre e pronto para que o trem tome seu lugar. Tal processo se repete no momento do trem partir, garantindo que nenhuma bagagem – ou passageiros – estão presos nas portas fechadas do trem.

Isso é tão integrado na cultura do transporte ferroviário japonês que nas placas de direção do Museu da Ferrovias de Kyoto figuram bonecos na postura clássica do “apontar e falar”.

Eficácia garantida na diminuição dos erros laborais

Esse sistema é parte integrante de um grande número de indústrias no Japão. Originalmente desenvolvido pelo extinto Departamento de Administração das Ferrovias de Kobe no fim da Era Meiji (início do século 20), “apontar e falar” é comprovadamente responsável por reduzir até 85 por cento dos erros no local de trabalho, de acordo com um estudo de 1996. Enquanto alguns colaboradores “apontam e falam” com mais entusiasmo que outros, até aqueles mais ponderados são beneficiados pelo aumento da atenção decorrente do reforço físico de cada tarefa.

Condutor de trem de Hiroshima apontando e falando, por James Abbott (CC BY 2.0)

Por ser um método tão simples e efetivo para aprimorar a taxa de erro dos trabalhadores, o sistema continua sendo amplamente utilizado no Japão. No entanto, é uma das muitas habilidades da cultura laboral do Japão que não são incorporadas com entusiasmo pelos trabalhadores ocidentais. No caso do “apontar e falar”, comentadores japoneses teorizam que os colaboradores ocidentais se sentem bobos ao performar os gestos e as chamadas.

Apontando e falando fora do Japão

Uma exceção notável é o sistema de metrô da cidade de Nova Iorque – MTA, na qual os condutores utilizam uma versão modificada do sistema de “apontar” desde 1996, após o Chefe de Transportes Nathaniel Ford ter ficado fascinado pelo sistema de “apontar e falar” durante uma viagem de negócios ao Japão. No caso do MTA, os condutores apontam para faixas pretas e brancas para confirmar que um trem que parou está corretamente estacionado no local apropriado da plataforma.

old fashioned clock placed in aged hallway with ornamental walls
Relógio da estação do metrô de Nova Iorque

De acordo com a porta-voz da MTA, Amanda Kwan, condutores se adaptaram rapidamente ao novo sistema e dentro de 2 anos de implementação incidentes de atracamento incorreto dos metrôs caiu em 57%.

Vencendo o embaraço em prol da segurança ferroviária

Trabalhadores japoneses também não são imunes a um certo embaraço ao entrar em contato com o “apontar e falar”, mas após um período de treinamento a técnica é logo incorporada e aceita como parte do trabalho. Um porta-voz do Metrô de Tóquio declarou em um depoimento que novos colaboradores “reconhecem que “apontar e falar” é necessário para operações seguras nas ferrovias, e portanto não se sentem envergonhados em utilizar a técnica”.


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